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Resenhas :: Reparação

Título: Reparação

Autor: Ian McEwan

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 444

Onde costumo comprar (Opções de livro impresso): Saraiva | Submarino

Sinopse: O premiado escritor Ian McEwan arma em “Reparação” uma trama fascinante em torno de Briony Tallis, pré-adolescente que nutre a ambição de se tornar escritora. Na tarde mais quente do verão de 1935, na Inglaterra, a adolescente Briony Tallis vê uma cena que vai atormentar a sua imaginação: sua irmã mais velha, sob o olhar de um amigo de infância, tira a roupa e mergulha, apenas de calcinha e sutiã, na fonte do quintal da casa de campo. A partir desse episódio e de uma sucessão de equívocos, a menina, que nutre a ambição de ser escritora, constrói uma história fantasiosa sobre uma cena que presencia. Comete um crime com efeitos devastadores na vida de toda a família e passa o resto de sua existência tentando desfazer o mal que causou.

Há livros que lemos e, após algum tempo, esquecemos de suas histórias. E há aqueles que nos marcam para sempre. “Reparação”, de Ian McEwan, tornou-se um desses livros para mim e, por isso, vejo dificuldade em fazer uma resenha dele. Apesar disso, creio que seria uma injustiça deixá-lo de lado.

O livro – adaptado para o cinema em 2007 sob o nome “Desejo e Reparação” (“Atonement”), estrelado por Saoirse Ronan (“O Grande Hotel Budapeste”), Keira Knightley (“Piratas do Caribe”), James McAvoy (“X-Men: Primeira Classe”) – gira em torno da protagonista Briony Tallis, uma pré-adolescente que, movida pelos sentimentos juvenis e por sua ânsia de dar uma resposta a tudo, cria uma história que mudará a vida de todos.

No verão de 1935, a casa dos Tallis está lotada de pessoas: Cecilia, a irmã de Briony, o irmão delas e um colega dele, a prima Lola e seus irmãos, e Robbie, o filho de um empregado, que aspirava a ser médico. Quando um crime acontece nos limites da propriedade, obviamente, Briony tem a resposta. Somente uma pessoa entre os visitantes poderia ter feito aquilo.

A jovem, porém, nunca levou em consideração que poderia haver grandes falhas em seu raciocínio. Em meio a uma Inglaterra em guerra, Briony finalmente se dará conta de que essas falhas não podem ser reparadas, por mais que ela deseje, e encontrará em sua criatividade a única forma de dar vida à vida que ela impediu de acontecer.

Sem dúvidas, Ian McEwan é um dos grandes autores da modernidade, e fiquei contente que “Reparação” tenha sido eleito por críticos, a pedido da BBC, como o 9º melhor livro lançado no século XXI. “Reparação” é uma história extremamente bem escrita, com alternância dos pontos de vista entre Briony, Cecilia e Robbie, o que nos permite analisar a história não somente através da mente complexa da pré-adolescente, mas através dos fatos que não são vistos somente atrás da janela.

“Seriam todas as demais pessoas realmente tão vivas quanto ela? Por exemplo, seria sua irmã realmente importante para si própria, tão valiosa para ela mesma quanto Briony era? […] E as outras pessoas, inclusive seu pai, e Betty, e Hardman? Se a resposta fosse sim, então o mundo, o mundo social, era insuportavelmente complicado, dois bilhões de vozes, os pensamentos de todo mundo a se debater, todos com igual importância, investindo tanto na vida quanto os outros, cada um se achando o único, quando ninguém era único.”

O que mais surpreende em “Reparação” é a capacidade de Ian McEwan de construir as personagens de forma tão completa. Temos acesso a uma Briony infantil e mimada, que faz coisas terríveis e nos faz chorar pelo destino que ela causou, mas que possui questionamentos relevantes que nós mesmos nos fazemos. É esta identificação que não nos leva a odiar completamente a protagonista, mas a compreendê-la, por sabermos qua também agimos dessa forma. Quem nunca, diante de uma emoção, transformou pequenos elementos em uma grande ficção? Posteriormente, conhecemos a Briony que descobre tudo isso e que, de uma forma ingênua – e um tanto egoísta – tenta reparar o que não pode ser reparado, através da concessão de finais felizes. Você não é capaz de perdoa-la – ela própria não se perdoa, mas consegue sentir um pouco de compaixão pela personagem.

Percebemos, assim, que a vida sempre será dessa forma: seremos inconsequentes e cometeremos erros ainda que não tão trágicos quanto os dela, erros que não poderão ser consertados, que nos trarão culpas a serem carregadas até o final de nossas histórias.

“Como pode uma romancista realizar uma reparação se, com seu poder absoluto de decidir como a história termina, ela é também Deus? Não há ninguém, nenhuma entidade ou ser mais elevado, a que ela possa apelar, ou com que possa reconciliar-se, ou que possa perdoá-la. Não há nada fora dela. Na sua imaginação ela determina os limites e as condições. Não há reparação possível para Deus nem para os romancistas, nem mesmo para os romancistas ateus. Desde o início a tarefa era inviável, e era justamente essa a questão. A tentativa era tudo.”

Por fim, o livro pode ser um tanto pesado – não em relação à descrição, mas relativamente à carga emocional -, o que pode atrasar a leitura. E, no final, a surpresa de que o desfecho a que somos apresentados talvez tenha contido em sim tanta ficção quanto a existente na mente de Briony durante toda a sua vida.

“Agrada-me pensar que não é por fraqueza nem por evasão, e sim com um gesto final de bondade, uma tomada de posição contra o esquecimento e o desespero […]. Dei-lhes a felicidade, mas não fui egoísta a ponto de fazê-los me perdoar. Não exatamente, não ainda.”


Ian McEwan Nasceu em Autor 1948 em Aldershot, Inglaterra. Publicou duas coletâneas de contos e uma dezena de romance, entre eles “A Criança no Tempo”, “O Jardim de Cimento”, “Amor Para Sempre”, “Amsterdam” e “Serena”. Conquistou, entre outros prêmios, o Whitbread Award, em 1987, e o Booker Prize, 1998.
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4 pensamentos sobre “Resenhas :: Reparação

  1. Ahhh, tenho esse livro há mais de um ano, comprei num sebo, mas ainda não consegui ler. Tenho uma megacuriosidade de ler algo do McEwan e na época fiquei eufórica por ter achado esse livro. Só não li mesmo porque estou com uma fila imensa de leitura, mas pretendo ler num futuro não muito distante hehe. Quanto ao filme, também não assisti, mas tenho vontade; gosto muito das atrizes Keira e Saoirse.
    Gostei muito da resenha e dos trechos escolhidos. =)

    Beijinhos, Livro Lab

    • Eu amo esses trechos do livro. São trechos que não saem da minha cabeça, e os tenho anotado em vários lugares. Então, não poderia deixá-los de fora da resenha.
      O filme é muito bom, também, mas ainda prefiro o livro, acho que por causa da profundidade maior da personagem Briony.
      Do Ian McEwan também comecei a ler Serena, mas acabei deixando de lado por falta de tempo, e, depois, outras leituras surgiram.
      Espero que você goste da leitura quando tiver a oportunidade de fazê-la!

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