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PETER GREENAWAY e desce o pano

Um inventário do mundo de Calibã

4493079308_0a24d1fb6a_oA título de despedida venho convidar a todos para que assistam os filmes enigmáticos e críticos do mestre Peter Greenaway.  O que ele faz, nesses filmes?  Ele recria o universo. O uso de alfabetos prepondera. Forma de listas DE elementos. Os números são usados como sustentação estrutural. As listas podem resultar da aplicação de sistemas como números ou letras. Em todo o caso se procura medir, organizar, ora reinventar o mundo.

            Labirintos, puzzles, ludismos, bestiários,  mapas, redes de associações,  inventários e catálogos, as malas e exposições, bibliotecas e arquivos, as biografias e enciclopédias, o paisagismo e o retratismo.

            Gosto por uma organização espetacular do mundo. Amor pela informação, datafilia compulsiva, identificamos uma compulsão, quase clínica, para a gestão de dados.

            Palavras como reenvios e reentrâncias, volatilidades e fugas, trânsitos e inconstâncias, caracterizam a arte de Peter Greenaway, apesar disso, ele mesmo reconhece um grande classicismo estrutural em muitos dos seus filmes:  um prólogo, três atos e epílogo é a estrutura mais comum dos seus filmes, cuja genealogia localiza na grande ópera ou no romance do século XIX.

            Por que tudo parece tão estranho, então?

            Enfim, como nos fala Nogueira,

um documentário total, capaz de conter o mundo, a civilização, a  cultura, a arte, o cinema, o cineasta, o pensamento, cada objeto, cada ideia, cada sinal, cada código. Esta espécie de cosmologia, feita de escalas e de níveis vários, parece conter todas as dimensões, todas as medidas do mundo.

            Existe uma tática clara, e essa tática é a da provocação lúdica,  o uso dos sinais cifrados, mostra das aparências veladas e desveladas, aplicação das sutilezas alegóricas, da irradiação simbólica.

            Artifício estilístico, e, cênico. Autenticidade ou encenação? O testemunho e a reconstituição.  Todas estas referências, são recobertos por uma película de ficção, de fábula, de arranjo, de ceticismo, de suspeita, de manha, de brincadeira. O juntamento das várias culturas num só filme fala bem melting pot cultural. No entanto o resultado é um painel irreal, virtual do mundo.

            Nogueira fala novamente que trata-se de

Conflito entre documentar para informar e finalizar na confusa desinformação.O cinema como amálgama conceitual e discursivo onde cabem todos os jogos de espelhos de afastamento e aproximação ao real: o cinema como reflexo de si mesmo, o cinema como reflexo do pensamento, o pensamento como reflexo do mundo. E, deste modo, parece restar um enorme ceticismo: em relação à ilusão realista, em relação aos sistemas de organização do mundo, em relação ao próprio cinema, em relação à narrativa, em relação aos gêneros – como o documentário e a ficção.

                    Talvez Peter Greenaway esteja sempre a fazer o mesmo filme. O filme do próprio cinema cheio de autorreferências e autocitações. Um autorretrato. Os caminhos para o documentário pessoal impondo-nos a simetria, a necrofilia, a traição, a pintura, o cinema, a civilização.

          Existem algumas regras específicas de montagem e de enunciação que garantem que haja a impressão de realidade no cinema, as principais delas são a ocultação do aparato cinematográfico e a verossimilhança. Peter Greenaway rompe com ambas. Ele faz filmes que se parecem com filmes, são antinarrativos e antirrealistas. Ao ressaltar o artifício ele coloca em evidência o simulacro implícito em toda representação. Filmes com estética maneirista, ornamental, ele iguala vida e arte como “ornamento”, na sua gratuidade e beleza.

          Há muito do  Greenaway pessoa no desenhista de Draughtsman’s Contract, no arquiteto de Belly of an Architect, no duque de Prospero’s Books, no cozinheiro de The Cook, the Thief, his Wife and her Lover?   Em The Tulse Luper Suitcases a personagem principal é descrita, entre outras coisas, como um colecionador, arqueólogo e inventariante; uma perfeita projeção de Greenaway, o seu total e assumido alterego?

          O gosto pela ordem e pela simetria, o gosto pela descrição e pela estrutura, o gosto pela excentricidade e pela aritmética; o escrúpulo voyeurista e o distanciamento irônico, a escopofilia que perscruta o nascimento e a morte, a amplitude do paisagismo, os procedimentos do inquérito e a exatidão estrutural.

          O excesso, a profusão é uma característica determinante. Greenaway deseja não só compreender a história da humanidade, mas principalmente explorar os limites de sua própria condição como artista multidisciplinar.

          E nas pegadas de Peter Greenaway podemos perguntar: para que serve o seu cinema? Ou o cinema em si?

          A convocação de tantas referências culturais, estratégias discursivas, e, dispositivos criativos não acabarão por, em algum momento, se anular mutuamente?  Se falamos de um cinema-programa, não estaremos mais próximos da cibernética do que do afeto? O hipertexto não sacrificará a imersão?  Com o excesso de cálculo, de estrutura, de mensurabilidade. resulta uma distância emocional, deliberadamente procurada, perante o objeto artístico.

          Mas não é obra fria. É comportamental e não aventuresca, nem passional.  Há muito de mecânico e pouco de orgânico. É profusa e fragmentária e saturada.

          Peter Greenaway é um misto de historiógrafo e semiólogo. Colecionador contumaz. Párea ele o cinema nada mais é do que a literatura ilustrada. Há que se inventar o cinema.

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