Início » Geral » Dica de leitura: Nihilismo e arte em Nietzsche

Dica de leitura: Nihilismo e arte em Nietzsche

1507-1

NIHILISMO E ARTE EM NIETZSCHE

Autor JOÃO CONSTANCIO

Editora TINTA DA CHINA

Páginas 392

Caso a árvore esteja sozinha no campo, como faço para constatar sua existência?

A pintura do museu de Prado não existe se não houver público circulante?

Parece-me que a dúvida, – segundo Conduru, – não procede mais, pois, sabemos todos que a árvore ou o quadro existem, mesmo que não estejamos presentes no mesmo local; se falo de árvores e quadros é porque alguém informou da existência deles. Ponto pacífico e final. Não sejamos ingênuos. Se há um vento rolando agora na Jordânia não posso falar sobre isso pois não estou por lá e ninguém me falou dele. Puro agnosticismo.

Conhecemos quase todos os textos de Platão e poucos do Demócrito. Como a maioria de textos é de Platão a história será contada através da óptica platônica. Outros sábios com obras perdidas, – desconhecidas, – passam também por inexistentes. Não apenas os sábios, mas, também, suas obras. Alguém sabe do nome do ‘garçom’ que atendia Cesar em seus lautos banquetes?

A interação já se faz na memória. A obra de arte interage independente de ter, ou, não ter público, pois, o faz via memória. Se alguém pintasse um quadro, o guardasse na cabana, e morresse, se ninguém soubesse de seu paradeiro, ficaria por isso mesmo, no entanto,  a obra, ainda assim existiria. A obra se deterioraria e sumiria nas areias do tempo, porém, teria existido. Se Da Vinci tivesse pintado uma segunda MonaLisa e a escondesse?

Mas a MonaLisa não se deteriorou. Tiveram cuidados para com ela.  Por que? Perceberam nela que a técnica aplicada estava em seu auge? Que talvez houvesse ali uma obra master? Ou, ainda, teria sido essa uma tal obra que sintetizasse os ideais daquele tempo? A Monalisa teria o mesmo significado para o camponês iletrado do burgo?

A cultura é sempre uma construção.

Dessa forma se a obra é consistente e atinge o máximo de sua técnica não há necessidade de que alguém diga isso ou aquilo sobre ela. Ela diz por si mesma. Especialmente as obras que demonstram que o artista domina(va) seu ofício. Como exemplo: Velásquez, que provavelmente dono de aplicada técnica, bem podia pintar tanto meninas quanto caquis que sua maestria não seria posta em dúvida. A referência que Diego Velásquez usava a realidade imediata. Uma realidade semelhante para os aristocratas que podiam pagar por aquela arte.

Hoje a crise aparece, seguindo essa linha de ideia, é que não há parâmetros de referência comum e é necessário alguém, – o amigo do rei, – dizer que a obra é de arte. O leigo acreditará naquilo sem pestanejar, e, o mercador de artes nem mais tocará no assunto. O crítico, talvez. A obra, por si somente, não tem poder para se impor como arte. Não sintetiza o mundo. Depende de mídia e de propagandistas da tendência. Igual  ocorre na moda. Andy Warhol é minha testemunha insuspeita. Ele se tornou artista por que a mídia disse que ele o era. Sua obra não se impôs por si só. Ela se impôs por ação coligada de jornais, TVs e críticos afins. Mas, tem gente que acha que não.

No caso de Velásquez a cópia (farsa) de sua obra teria de ser feita por alguém que fosse tão artista quanto ele. Um expert. E, a obra teria, enfim, o mesmo valor, a não ser o diferencial do tipo de tinta que se usava no passado. Eu, se fosse falsificar um Velásquez, até fabricaria minhas próprias tintas.  No caso de Andy Warhol fica óbvio que qualquer serigrafista faria igual.

Quando falta a técnica deve sobrar a verborragia e deve entrar em campo o argumento do conceito, da sacada, das relações perigosas e a sacrossanta mídia que assinalará nas páginas de CARAS, assinada por alguém que do alto de sua sabedoria dirá:-  sim existe uma árvore no meio do campo; sim isso é uma obra de arte pois foi criada pelo meu amigo Erasmo Carlos; sim, comprem!

A mídia pode afirmar de árvores que nunca nasceram no campo e o vulgo acreditará nesta patuscada.

Mas tomemos Górgias: se tudo existe, nada existe. Se a obra de Lygia Clarck, sempre inconclusa precisa de que seja mexida e alterada para se tornar viva, assim mesmo se mantendo inconclusa, permite dizer, talvez, que nem arte seja. (Des)Arte.

O brinquedo Lego recai na mesma situação… a mesma coisa. A massinha do Jardim da Infância é a mesma coisa. Nenhuma criança pinta a MonaLisa. É necessário uma intencionalidade ligada à técnica.

Parece, de outro modo, que se quer negar a arte daquele que desenha e pinta, por exemplo. Tais atividades se tornaram olvidáveis, pois, talvez a maioria das pessoas não sabe, mesmo,  nem desenhar nem pintar nem se munir de técnica alguma… daí a mística sobre quem sabe manusear o lápis. Que coisa difícil uma boa tela em aquarela, não?

Um Campbell por apenas um traço de aquarela sobre o papel de arroz. Um traço azul da Prússia de aquarela sobre o papel de arroz não tem em si uma gama imensa de correlações conceituais? Para que serve? Para nada, meu, é arte, não é o sapato da moda.

Seguindo as premissas de Conduru, e parafraseando Mozart, o artista criará e não pensará no público.

No catálogo: – Há uma grande saída para figurativismo com borboletas inseridas em acrílico.

– Ah! Que pena, só sei desenhar braços e pernas na caneta bic. Fica então para a próxima encarnação. Arte? Pra que? Esperemos, então, que as borboletas combinem com a parede da sala.

Tem tudo a ver… me lembrei de um gibi em que o Donald compra 1 metro de livros amarelos para colocar na estante. Ele só queria os amarelos.

O que Nietzsche nos pode ensinar sobre isso?

Convido ao leitor inteligente a ler a obra acima. Ao não inteligente, não sei.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s