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CALIGARI E SEU CÃO ANDALUZ – uma visão sem cortes

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EXPRESSIONISMO ALEMÃO

década 20

diretores WIENE e BUÑUEL

Outro dia um inopinado leitor fez a critica de que eu falava sobre filmes velhos. Ora, o filme será velho em idade mas não em atualidade. Esse é o caso do Cão Andaluz ou do Caligari. E, será muito novo para quem não viu os dois, como pode ser o caso do inopinado leitor. História do cinema, história e atalhos. Não podemos reinventar a pólvora.

O CÃO ANDALUZ, de Buñuel, é marco da cinematografia, finca pilares e aponta possibilidades na arte. Obra de 1928. Antes disso, em 20, DAS CABINET, de Wiene mostrava experimentalismos radicais. Vemos nos dois as marcas da psicanálise, do onírico, da poética, expostos na película.

Tensão – o olho cortado, Cesare saindo do armário, formigas que brotam da mão da personagem, o mago misterioso na feira apresentam tensão, obedecendo porém a valores diferentes. Alguns deles já eram tradição na literatura romântica.  DAS CABINET carrega a historia de maneira direta e linear comprometendo-se a ‘começar, ter meio e finalizar’, mesmo que o final seja surpreendente. O CÃO, por outro lado, mostra tensão na cena em si e por si, pois a edição de cenas com episódios estranhos, diferentes, e oriundos do inconsciente não se preocupam com a história cabível ao modo SydFeldiano (aliás um péssimo exemplo) de contar historias em ROLIÚDI.

Realismo – DAS CABINET é obra de clara inspiração expressionista e os mestres alemães pontificavam na retomada da arte cinematográfica como instrumento de estímulo da fantasia, além da normal ‘contação’ de histórias. Pessoalmente não conheço um filme alemão que se assemelhe ao CÃO em termos de simbologia, de sinais críticos, e liberdade de expressão.

A história de DAS CABINET é imagem de uma realidade sombria que rola na cabeça dos pacientes do asilo onde todas as personagens vivem e interagem. Nada mais pé no chão do que a doença que remete ao mundano viver da civilização que nos causa mal estar por ser um artifício; resolve-se no final. No CÃO ANDALUZ ancora-se a realidade na existência do casal que dá linha à pipa de Buñuel, além do fato de que as locações são naturais em ruas e espaços tradicionais.

Experimentalismo – A história do DAS CABINET é projetada sobre cenários alterados em perspectiva que nos remete à distorção da consciência dos pacientes do asilo. Dessa forma tais cenários são realistas para os pacientes mas foram criados pelo autor com intuito de mostrar a visão distorcida do que seria a mente alterada.  Empírico. Wiene propôs: temos a visão normal ou ortodoxa do mundo e aquela visão, em cenários fora de prumo, seriam características das mentes que saem do campo da normalidade.

Hoje nos acostumamos com qualquer distorção como efeito especial. Naquela época de entre-guerras, com poderio militar à sua porta, batalhas em potencial, Jung palpitando sobre a síndrome de Odin, a tensão estava, literalmente, no ar. Como Franco ainda não estava no poder podemos aquilatar que Buñuel e seu louco amigo de Cadaqués, o Salvador, criaram sem limites obedecendo as regras (ops) do manifesto surrealista.

Naturalismo – A tela grande, sucedâneo de útero e noite sonhadora, envolve o espectador; vira janela para o inconsciente; caminho que o cinema buscou e obteve, o escuro é sinal de ‘interior da mente’ e se conjuga com o fato de que as imagens podem gerar o fado, investindo assim no campo dos sonhos;  além disso tem o poder coletivo de manifestação e auto/sugestão que pauta Jung no caso do inconsciente das massas. O caminho já estava aberto para o inconsciente, por força freudiana;  o cinema saia dos documentários de Lumière para ganhar repercussão real ou metafórica em função daquilo tudo que já ia nas artes plásticas, no teatro e na música, em termos de captação da realidade imediata e releitura livre.

O projeto cinematográfico  pode unir entretenimento e indústria.  O cinema, tão complexo e múltiplo, pode muito bem ser comercial e apresentar técnica refinada. Pode, através de pequenos signos e poucos segundos, mudar a leitura da historia, como é bem exemplo ‘Blade Runner’ e o origami do unicórnio que prova, em 40 segundos na versão do diretor, que o policial Deckard é replicante também. Um objeto real remetendo ao onírico.

Buñuel e Wiene, em suas obras, não estariam lançando cartas ao futuro como Villa fez em suas obras musicais? Os novos códigos esclareceriam o teor das cartas? Ou seriam experimentações em si, ali terminadas para testar uma ideia e partir para outra?  As duas obras seriam mais acessíveis se estivessem em cores com interpretação via Actor Studios e distribuição Miramax?

Acredito que reler Buñuel seria inventar outra obra. Releitura de DAS CABINET se fazem às dúzias. Mas em qualquer das produções há alguma ideologia. Vemos em Buñuel a ideologia de que tudo é livre e possível. Sonhe e será. Nada deve ser submetido à forma ou regra. Nada deve ser dependente de controle e, o autor tem que se munir da liberdade de crítica e liberdade de expressão, apesar dos dogmas.

Em DAS CABINET vemos que aquilo tudo que se mostra livre é violento, descontrolado, e deve ser punido. Cesare, em seu amor, é doentio. No entanto, no final, apesar do sonho e das distorções, voltamos à realidade medíocre; tudo  não passava de delírios de loucos.

Só mesmo os loucos (artistas e criadores?) podem querer a liberdade e o aleatório.

E se reserva ao ser humano comum e controlador punir quem sair dos trilhos ou aplaudir sentadinho na plateia.

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7 pensamentos sobre “CALIGARI E SEU CÃO ANDALUZ – uma visão sem cortes

  1. Essa tua postagem me gerou uma nostalgia enorme rs me lembrou a época que eu viciei nos filmes mudos *-* lembro que foi mais de um ano e eu vi de tudo. O cão andaluz e o gabinete ainda são uns dos meus preferidos mas meu amor pela Louise Brooks nasceu nesse período e O Homem que ri ♥
    Gostei muito da tua reflexão 🙂 também concordo que filmes não tem idade. Eu gosto do que eles trazem, nos fazem ir pra épocas que não vivemos e sentir como foi lá.

    =* até!

    • Olá Tamara. Obrigado pela atenção. Um dos meus interesses pelos filmes silenciosos é que desenvolvo um trabalho em fazer trilhas para filmes que perderam suas trilhas – décadas de 10 e 20 – e o grupo as apresenta ao vivo. Além do fato de que são as bases da filmografia moderna. até

  2. Nem sempre “filmes velhos” são ruins, depende do filme. Nunca tinha ouvido falar do filme e não sei se vou gostar, por causa do tema, mas talvez assista já que nem sempre que acho um filme ruim descubro que ele é bom.

    • O filme somente é velho em idade. Mas contemporâneo nas ideias. Isso é o que conta. Nesse caso são dois filmes de autor que marcaram história. Os filmes que você vê hoje e gosta dependem desses originais que romperam com as leis. Só há mesmo uma maneira de saber se é bom ou ruim: assistindo. Mas é bom assistir sabendo como era a estética daquela época.

  3. Essa coisa de “filme velho” é algo muito relativo. Eu posso achar um filme velho, mas minha mãe pode não achar o mesmo, ou minha avó e por aí vai. Meu avô costumava dizer que velho é o mundo. Eu amo filmes antigos e não me canso deles. Adorei a dica e vou conferir com certeza.

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